A propósito dos juros

Todos concordam que a taxa de juros de 400% ao ano é muito alta. Até os banqueiros sabem disso pois é só compará-la com a taxa anual de juros de 14,25% definida pelo Banco central (Selic).
Como explicar então que essas taxas continuem sendo praticadas? Ganância dos banqueiros? Incompetência do governo federal? Culpa do FMI? Efeito da globalização? Custo Brasil?
Nada disso, pessoal. Infelizmente a culpa é nossa, só nossa, de nós brasileiros.
Mas como? É fácil explicar.
A taxa de juros obedece a uma lei básica da economia que é a lei da oferta e da procura.
Essa lei explica que se a necessidade (procura) de dinheiro é maior que a disponibilidade (oferta) das instituições financeiras, o custo do dinheiro (taxa de juros) sobe até encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois movimentos.
É como carne de churrasco. Se muita gente quer fazer churrasco e tem pouco boi no pasto, o fazendeiro vai cobrar mais pela arroba do boi vivo porque tem muito frigorífico querendo comprar seu gado.
Grosso modo, se as pessoas, as empresas e os governos passassem a usar somente a metade do dinheiro dos bancos que normalmente usam, a taxa de juros cairia pela metade. É simples assim.
Porque, então, não fazemos um mutirão para derrubar a taxa de juros e acabar com os lucros estratosféricos dos bancos brasileiros?
Esta é mais fácil ainda de responder: porque somos imediatistas. Foi-se aquela mentalidade do imigrante que queria fazer seu pé-de-meia para garantir o seu futuro e da sua família. Hoje queremos tudo logo. Festas, roupas, eletrônicos, viagens, carro novo, é tudo para ontem. Se não temos recursos, é só pegar no banco. Nossos governos também agem dessa forma. Para ganhar eleição vale gastar o que não tem. Fazer economia, austeridade, nem pensar. Povo gosta é de gastança.
Mesmo assim temos uma saída. Nenhum de nós vai querer assumir a culpa, por isso vamos culpar um terceiro. No Brasil, é só achar alguém para culpar que todos se sentem aliviados, como se o problema estivesse superado. Que tal culpar os banqueiros ou as multinacionais?
A propósito dessa mentalidade conta Roberto Campos em sua biografia “A lanterna na popa” que, ao Jânio Quadros analisar a parte que Campos havia feito para seu discurso de posse, o presidente perguntou:
– Mas onde está o inimigo?
– Que inimigo, presidente? – questionou Campos.
– O povo precisa de um inimigo para culpar. Está faltando no discurso – argumentou Jânio
Dias depois, ao tomar conhecimento do discurso proferido, Roberto Campos ficou sabendo que Jânio Quadros havia atribuído às multinacionais do petróleo a culpa pelas mazelas brasileiras. E que o povo havia gostado do que ouvira.

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